Após árdua espera, Zeca Pires retorna às telas com o seu novo/antigo longa-metragem A Antropóloga. Ao enfrentar adversidades relacionadas à captação de recursos, o filme vencedor do Edital da Cinemateca Catarinense de 2002, finalmente, foi finalizado e distribuído nas salas de cinema de Florianópolis. Apontado há tempos como a chance de redenção do anterior Procuradas – este alvo de zombarias em território nacional - o longa estréia com uma excelente bilheteria e boa repercussão local.
Mais uma vez, Zeca retoma os temas regionais - dessa vez o universo bruxólico da ilha de Florianópolis. Longe dos clichês acerca da ilha da magia, aborda o cotidiano da comunidade da Costa da Lagoa, através de um olhar estrangeiro. De uma ilha à outra, Malu, a antropóloga do título, deixa os Açores e vem a Florianópolis a fim de estudar a etnobotânica da região. Sabiamente colocados na abertura do filme, os vulcões açorianos em erupção, prenunciam o que estará por vir - a provação de Malu. Imediatamente, a personagem-título desenvolve afeto pelos novos vizinhos, em especial pela menina Carolina que se acredita ter um câncer terminal no cérebro. Esta, embora filha de um médico, não dispõe de um tratamento médico intenso e permanece apenas aos cuidados de Dona Ritinha, a líder comunitária e também benzedeira da região. É desse argumento completamente plausível que renasce o inesgotável embate entre a razão e emoção, ou melhor: ceticismo e misticismo.
Mostrada superficialmente, a pesquisa de Malu é complementada com depoimentos verídicos dos moradores da região. A câmera documental - já uma característica do diretor - capta grandes closes de rostos expressivos e vividos dos habitantes. Por vezes, arrancando risos do público ao ouvirem as vozes carregadas de sotaque ilhéu e simplicidade.
A partir do entrosamento entre protagonista e demais personagens, pouco a pouco, a narrativa toma nuances fantasmagóricas: eventos sem explicação advêm com maior freqüência. Vistos, a princípio, com ceticismo pela antropóloga, são incorporados crescentemente ao seu imaginário, até a própria abster-se do ofício original - a pesquisa, agora suprimida pelos desenhos de Franklin Cascaes, toma proporções assustadoras. Logo, o diagnóstico de Dona Ritinha de que Carolina sofreria de empresamento/embruxamento - supostamente a influência de uma bruxa má - torna-se uma possível realidade. Para a ciência, câncer; para os ilhéus, influência maléfica.
Como estratégia de alívio são introduzidas três figuras góticas. Repletos de emblemas cristãos, esses vem à costa da lagoa - ironicamente - contemplar o grande sabá das bruxas. Funcionam, sim, como alívio à tensão, porém são completamente inverossímeis em seus atos. Diferente do excelente elenco que integra a produção destaca-se Sandra Ouriques como a convincente benzedeira Ritinha, e seu sétimo filho, Pedro, interpretado por Eduardo Bolina. Ambos atores locais.
Contudo, o longa não se mantém livre de momentos desnecessários como a ânsia de documentar a tradição local, a exemplo o boi-de-mamão; e as referências cinematográficas, tanto ao suspense Hitchcokiano quanto à magia no cinema de Spielberg - desde a aparição de Zeca no pier à releitura de E.T no clímax do longa. Diga-se de passagem, que as deficiências do longa são mais técnicas do que criativas - problemas com raccord, movimentos de câmera inseguros, e o uso abusivo de sons que prenunciam a tensão. Pouco imaginativa, a fotografia aposta em movimentos desnecessários e cansativos. Salvo alguns planos, as composições de quadro não acrescentam à arte e aos personagens.
Adepto do "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay", Zeca pires toma as rédeas para um final pouco racional. Estrategicamente, este fica subentendido: Malu retorna ou permanece na ilha da magia? De fato, Carolina está curada?
Apesar de consagrado pelos cineastas e jornalistas locais, A antropóloga tem problemas imensuráveis, fazendo-o de um filme interessante à razoável. Grifa-se, contudo, o problema entorno da captação de verba - uma tarefa árdua para qualquer produtor competente. Sem dúvida, é a melhor obra cinematográfica de Zeca Pires, como ele mesmo o definiu em recente entrevista a Cacau Menezes; e também marca a retomada do cinema catarinense, colocando-o novamente em circuito nacional. A Antropóloga já teve o mérito de estrear em três salas de Florianópolis e permanece em cartaz pela segunda semana consecutiva. Requisito para todos os cineastas -aspirantes ou não-, e no mínimo curioso para os demais espectadores imergirem no universo bruxólico.